O triste é que algumas das coisas mais divertidas parecem extremamente idiotas quando vistas de longe, e não estou falando do divertido “brincar no parquinho”, “olha só o marmanjão no balanço, ê, vê se cresce, rapaz!”, não, porque quem pensa assim de um balanço não tem bom coração. Estou falando, por exemplo, de discutir a origem do Universo num bar. Imagine a cena, visualize-a: estou lá, discorrendo animado sobre a expansão inflacionária, e a relatividade, e o experimento das duas fendas – quando, subitamente, reparo que alguém de outra mesa está me olhando com aquela cara de “peloamordedeus, do que esse idiota está falando?”, e aí toda a graça do momento se dissipa, e eu fico auto-consciente, e constrangido.1
Não que eu estivesse sendo tecnicamente incorreto (provavelmente estava, mas não vem ao caso porque o cara da outra mesa nunca tinha ouvido falar em “espuma quântica” na vida); a questão é que, pra quem olha de fora, qualquer pessoa que esteja falando sobre a origem do Universo está sendo prepotente, leviano, está fingindo saber mais do que sabe. E, claro, eu estava mesmo sendo prepotente, leviano, estava fingindo saber mais do que sei.2 Mas, pelos céus, era justamente essa a graça! A graça de falar sobre coisas que não domino com a mesma naturalidade com que discuto algum episódio de A Bit of Fry and Laurie. De tentar resolver os problemas do mundo enquanto como polenta, de procurar o sentido da vida enquanto espero na fila do banheiro. Discussões, argumentações, esforços inúteis, absolutamente inúteis – mas tão divertidos. Não é? Precisava vir alguém e me achar um idiota? Não, não precisava. E tem coisa mais chata do que alguém dizer “ah, não sei nada sobre isso, melhor ficar quieto” ou “ixi, sentido da vida? vamos falar de manufatura de calçados, disso aí eu sei”? Não, não tem.
A não ser.
A não ser que eu seja o cara da outra mesa. Aí, ah, quanta diferença. Porque aquele rapaz ali no canto, fazendo uma exegese de Kafka? faça-me o favor, parece um chimpanzé tocando tamborim. Aquele outro, tentando discorrer sobre os problemas da arte contemporânea? garanto que escreve “mexer” com “ch”. Olho-os com justificada arrogância, tentando calar-lhes a boca com um sorriso sarcástico de canto de boca, um leve, muito leve, meneio de cabeça, e o mais profundo ar de “você não sabe do que está falando, seu idiota”. E pra cada boa alma que tem a decência de assumir a própria ignorância e prefere ficar em silêncio a despejar suas teorias canhestras no mundo, eu acendo uma vela quando chego em casa.
E eu sei o que vocês estão pensando agora, tolinhos: estão pensando que este é o momento em que coloco os fatos em perspectiva e admito que todos nós, de vez em quando, nos encontramos no lugar daquele que se diverte falando de Kant sem nunca ter lido uma palavra sequer do que ele escreveu e, de vez em quando, no daquele que se irrita com quem discute o super-homem do Nietzsche achando que Lois Lane tem algo a ver com a história – concluindo, portanto, que devemos ser compreensivos e fraternos e saltitar de mãos dadas. Mas não, não: o resumo é outro. Basicamente, eu falo as bobagens que quiser, e me deixem em paz. Mas vocês, ora, por favor! fiquem quietinhos. Ou, se é pra falar, que falem baixo, sentem longe.
- E não me venha com essa de “eu não ligo pro que os outros pensam”, porque se isso for verdade você é o mais insuportável dos seres, e eu não quero saber seu nome, muito menos apertar sua mão. [↩]
- Todo o meu conhecimento sobre a origem do Universo veio de dois livros do Brian Greene e um do Stephen Hawking, sendo que desse último não entendi metade. [↩]


15 de July de 2009, 10:41 am
gente, tao amargo… adoro!
17 de July de 2009, 1:01 am
O triste é que sempre tem um Cássio na outra mesa.
Ah sim, gostei do blog, ficou massa. Mais sorte para ele (o blog), sem professias malignas e sem maus pensamentos com relação a continuidade deste pequeno. Ainda não vi o Descolados mas admito que fiquei curiosa, se não for bom eu vou ficar brava.
Despertou uma pontinha de inquietude quando vc falou sobre o Explorer, mas sei lá, preciso arranjar mais um motivo (além do ícone da raposinha vermelha ser mais charmoso que o E com um anel)para trocar ele (o Explorer) por outro.
Sorte, paz e prosperidade meu rapaz.
20 de July de 2009, 11:54 pm
Toma, Cássio:
http://imgur.com/qy8jN.jpg
21 de July de 2009, 2:13 am
@tati: A gente faz o que pode.
@ju kussunoki: Dá pra assistir o Descolados inteiro no site: http://www.mtv.com.br/descolados/ (aliás, eu devia postar isso no blog, né?). Quanto ao Explorer, sem comentários.
@Alexandre: Já sei o que pedir de aniversário!
21 de July de 2009, 10:08 am
Sabe que pra mim tudo isso é papo de bêbado. Em bar só pode ser papo de bêbado ou de quase bêbado.
E eu adoro… Qualquer um dos lados…