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Sempre que alguém fala

18 de July de 2009

Sempre que alguém fala que um livro tem “ritmo acelerado” eu desconfio. Geralmente esse “ritmo” tem a ver com frases curtas, secas, diretas, e muito, muito chatas, tipo essas aqui:

O cachorro olhou pra ele. Olhos tristes, quase de vidro. Um chute. Cachorro voando, mas não muito. Cabeça no meio-fio. Sangue escorrendo. Uma puta viu e disse: “Filhodaputa!” Engraçado. A puta era ela.

que eu acabei de inventar, e já me sinto enjoado por tê-las escrito, peraí que vou pegar um sal de frutas.

E olha só, olha só: coincidentemente, estava passeando pelo site do Sérgio Rodrigues, e ele postou umas frases que o António Lobo Antunes (nunca li, by the way, mas talvez o faça um dia) disse na FLIP, e uma delas é: “Muitas vezes aquilo que os críticos chamam de qualidade são defeitos disfarçados”. É mais ou menos o que penso dos escritores-de-frases-curtas. Se você não pode falar mal dos livros deles – porque são seus amigos, porque tem medo que eles revidem, ou sei lá por que –, tem que achar algumas supostas qualidades ali no meio, e a primeira coisa que ocorre é o tal do “ritmo acelerado”.

Só que, c’mon, não faz sentido.

Quando leio um parágrafo desses me sinto num carro andando aos soquinhos, que nem quando você está aprendendo a dirigir e ainda não sabe direito quanto pisar no acelerador, quão rápido tirar o pé da embreagem, essas coisas. Não tem nada de “ritmo acelerado” em andar um pouquinho, opa, para, soquinho, andar mais um pouquinho. Ler um livro inteiro escrito assim é como ir de São Paulo a Salvador aos soquinhos, com a cabeça sendo atirada para frente e para trás durante as mais de vinte horas de trajeto. Eu, que prezo minha coluna, paro no primeiro posto de beira de estrada e fico comendo pão-de-queijo com Sukita, esperando um motorista melhor.


1 comentário:

  1. Onde se lê: ritmo acelarado, leia-se: ejaculação precoce. Abraços.


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