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What would you do

15 de Setembro de 2009

Sabe quando você reencontra, revisita, reassiste algo da infância, e não é tão legal? As piadas não têm muita graça, o que era pra emocionar constrange, a diversão resulta em tédio. E você se pergunta, incrédulo, “Como é que eu podia gostar de uma coisa dessas?”, e dispensa aquele fragmento do seu passado com um movimento aparentemente casual de mão, como quem diz que aquilo já era, que aquilo ficou velho e tolo.

Mas, na verdade, na verdade, você sabe que foi você quem ficou velho. Que está menos ingênuo, e talvez mais tolo, e o mundo não parece mais tão acolhedor; e se dá conta de que, oh meu deus, as coisas mudam, e agora você é um cínico ranzinza, com linhas de expressão na testa e em volta dos olhos, e se sente cansado, cansado, e a pergunta passa de “Como é que eu podia gostar de uma coisa dessas?” para “Por que é que agora eu não gosto?” E você percebe que entende algo sobre o tempo, sobre a morte.

Mas não é o que acontece com Anos Incríveis.

Anos Incríveis continua legal.

Assisti de novo ao primeiro episódio uns dias atrás. E fiquei todo emocionado, talvez até mais do que ficava antes, quando passava na Cultura na hora do jantar e eu assistia na televisão pequena usando fone de ouvido porque meus pais queriam ver outra coisa – não lembro o quê – na grande1. (A televisão pequena era daquelas antigas que, pra mudar de canal, tinha que girar um dial. E, acabo de perceber, lembrar dela também faz com que me sinta meio velho. Só que de um jeito mais bacaninha.)

Quando o Kevin beija a Winnie e When a maaan loves a wooomaaan começa a tocar, há duas reações que você pode ter. A primeira é achar a cena brega. É uma resposta absolutamente compreensível e correta: denota sua resistência às construções mais óbvias do discurso audiovisual, e um certo gosto por soluções sofisticadas e elegantes, e aqui vão meus parabéns.

Também deixa claro que você não tem coração.

A outra possibilidade é achar a cena bonita e ficar emocionado. Mas não porque você seja um pequeno suricate ingênuo que caminha sem perceber para as mais baratas armadilhas melodramáticas da dramaturgia. Na verdade, é quase o contrário. Você entende os códigos, entende a manipulação – e não se incomoda. Fica emocionado porque, diabos, é o primeiro beijo do Kevin, e você gosta do Kevin, e gosta da Winnie, e o Kevin está beijando a Winnie.

Não se emocionar com a cena é ainda estar preso naquela ideia tola de que o legal é ser sempre crítico, e nunca estar satisfeito, e dizer orgulhoso que a-há!, sou esperto demais para cair nesse truque barato, vou lá assistir Gordard porque esse sim. Quer dizer, você pode até não ser mais ingênuo. Mas ainda é idiota.

  1. Uma vez, quando o episódio começou, cantei junto o tema de abertura, querendo mostrar que sabia inglês e tal. Mas claro que não sabia, e cantei tudo errado, e meu pai me mandou ficar quieto que eu estava atrapalhando. []


7 comentários:

  1. uhauhauhauhauhau
    mto bom o texto, sempre lembro dessa tv velha e de assistir com fone tb.
    abrais


  2. Hehehe, massa. Aliás, que fim levou aquela TV, afinal? Abraço aí!


  3. Genial ! Legal ! shubidudowdown !
    jica


  4. é, você tem razão ( e a Fernanda também, quando disse que você mandava bem). abraço.


  5. Luana, fico feliz de não ter desapontado. Jica, shubidubid… enfim, isso aí.

    Abraços!


  6. Caralho, como assim Cássio?

    a gente não assistia isso junto? depois do karatê?

    lembro de umas épocas que a gente tinha que sair correndo com uns pesos no pé, de kimono, pela cidade. Aí quando o pai buscava a gente rolava um hamburguer de carrinho háa – e naquela época eles ainda faziam cachorro quente, puta saudade – e aí a gente chegava em casa e assistia Anos Incríveis – mas na tv maior – pelo que eu me lembre

    aliás aquela TV maior foi pra minha república em sampa e sei lá que fim levou :D – aquela de girar…não sei tb.

    aliás, muito loco ver outros pontos de vista de um passado comum!

    mas estranho, eu me lembro até do pai assistindo junto… não é possivel que os 3 irmãos assistiam um de cada vez!

    sobre o texto – FODA

    se bem que eu acho você muito novo pra ter essas crises de velho
    vai cagar! se não tá nem nos 30 ainda, lazarento

    abrassss


  7. Ah, é sim. A gente assistia junto depois do karatê, me lembro bem. (Aliás, eu era molequinho e sempre ficava pra trás naquelas corridas pela cidade, e o Shu? Chu? tinha que me acompanhar, era meio ridículo.)

    Mas, se não me engano, depois de um tempo começou a reprisar, e só eu gostava de assistir ao mesmo episódio pela décima-terceira vez; hence, a TV pequena.

    E, cara: não importa a idade; o importante é ter ESPÍRITO de velho. Hehehe.

    Abraço aí!


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