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All over now

05 de October de 2009

E aí que amanhã, terça-feira, 6 de outubro, às 23h30, na MTV, vai passar o último episódio da primeira temporada de Descolados.

Puxa vida.

Entrei no projeto em agosto de 2008. A Lud chamava Luli, a Nara não existia, a Henri François não existia, o Teco era webdesigner. Ninguém sabia como os três protagonistas iam se conhecer e passar a morar juntos. Ninguém sabia o que ia acontecer a partir do segundo episódio.

Rodrigo Castilho, Luca Paiva Mello, Marcelo Montenegro, Fernanda D’Umbra e eu sentávamos numa micro-sala estilo aquário, no meio da Mixer, para inventar tudo isso. Como o Teco ia parar na barraca de cachorro-quente? Por que o Felipe ia pra balada depois de tomar um pé na bunda? Uma viagem até Londres demora 12 horas; então a primeira cena do Teco tem que ser no dia 1, e a segunda no dia 2. Mas aí a história do Felipe não encaixa! Quem mais trabalha no clube da Lud (Luli!)? Tá, agora eles tão morando juntos; e agora? e agora?

Vai por mim, fazer um negócio desse dá muito mais trabalho do que parece.

E agora acabou, pelo menos por enquanto. A série deu certo. A reação de quem assistiu foi supimpa. Os comentários na internet, incríveis. Nas ruas, milhares de fãs ensandecidos fizeram passeatas para declarar seu amor pelas personagens; minha vida, antes pacata e singela, agora está repleta de propostas de casamento e calcinhas enviadas pelo correio, e tenho que andar na rua cercado por cinco seguranças e snipers nas janelas para me proteger da turba apaixonada que me cerca e– Não, não, brincadeira. Ninguém nem sabe que diabos é um roteirista.

Mas a série deu certo.

E tudo bem que não dá pra ficar citando todo mundo que participou e tal – porque o post ia ficar 1. muito longo (só pela sala de roteiro, eu contei, passaram 14 pessoas) e 2. muito chato, e nenhuma das duas coisas é bacana –, mas deixa eu só falar também do Fabio Danesi Rossi e da Paula Szutan, que nos salvaram várias vezes quando estávamos chorando desesperados em posição fetal porque não conseguíamos andar com uma história.

Então é isso. Assistam lá ao último episódio, que eu já vi e que está sensacional.

A criança de Foster

19 de October de 2009

Estava assistindo à primeira temporada do Lie to Me, aquela série em que o Tim Roth sempre sabe quando as pessoas estão mentindo – e que é bacaninha, até, apesar de chupinhar várias coisas do House e de não ser tão bom quanto, e apesar também de certas histórias não fazerem muito sentido –, quando fui exposto a algumas criações absolutamente sensacionais da legendagem voluntária da internet.

Olha, devo dizer que até admiro, ainda que meio de longe, esses caras que pegam as séries assim que elas passam nos EUA, traduzem tudo durante a madrugada, sincronizam, renderizam e postam o resultado em blogs cheios de anúncios do BuscaPé. Não entendo por que eles fazem isso, mas acho bom, porque aí dá pra assistir e tal. Mesmo que os tradutores não sejam assim Boris Schnaidermans das séries de TV, as legendas ajudam a entender o que as personagens estão falando de verdade, porque dão no mínimo uma pista. Assistir sem legenda nenhuma acho um pouco difícil.

Mas – oh, mas. Algumas das traduções são tão nonsense que eu me pergunto como esses caras podem gostar das séries quando, claramente, não entendem metade delas. Com Lost já era assim, com The Big Bang Theory de vez em quando. Mas em Lie to Me a coisa ganhou proporções quase artísticas, digna dos holofotes. Por exemplo.

No episódio 7, a frase “That makes you one hell of a liar” virou “Isso te faz um péssimo mentiroso”. Meio que o exato oposto do que disseram. O mesmo acontece no episódio 8, quando alguém diz que “The worst lies we tell are out of love”. Ficou “As maiores mentiras que contamos são sem amor”.

No episódio 10, Tim Roth fala sobre a ex-mulher: “You know what I miss? I miss the arguments”. Esse é ótimo, porque não faz o menor sentido: “Você sabe o que eu perdi? Eu perdi os argumentos“. É duro, é duro quando a gente perde os argumentos.

Mas as melhores partes, as que realmente transcendem o campo dos “erros pentelhos” e beiram verdadeiras façanhas poéticas, são as de nome próprio. No episódio 4 há um casamento. Quando alguém cita o nome do noivo, Roth repara na expressão de desgosto que guarda-costas não consegue segurar. E comenta: “He really doesn’t like the groom”.

A frase ficou: “Ele realmente não gosta do Groom”.

(O Groom é um ser mítico, de pêlo curto e branco, que, segundo a lenda, mora nas florestas encantadas do Jalapão. O Groom ajuda as crianças que se perdem na floresta a encontrar o caminho de volta, mas exige em troca uma queijadinha. O Groom fica muito triste quando não gostam dele.)

No episódio 10, uma menina deixa escapar uma expressão de raiva. E Roth afirma: “Lots of anger. Towards mom”. Tradução: “Muita raiva. Mãe do Towards”.

(Towards é um garoto meio espinhento que passa as tardes tomando leite desnatado e jogando Donkey Kong no Nintendo 64. Os amigos do Towards tiram sarro dele porque ele ainda joga Nintendo 64, e, por mais que Towards insista, a mãe diz que não vai comprar um Wii.)

A que mais me impressionou, no entanto, está no episódio 6. Roth e sua turminha estão investigando o caso de Samantha, uma menina adotada que desapareceu. Quando finalmente conseguem encontrá-la, lá pelo meio da história, Samantha confirma que havia sido sequestrada. Mas se recusa a dar mais informações, porque outra garota – Heather – ainda está sendo mantida refém, e Samantha não quer colocá-la em perigo.

Aí um agente do FBI que também está trabalhando no caso faz uma pesquisa no grande banco de dados do FBI e conta o que descobriu: “This other girl, Heather, might be Heather Mahome. Disappeared about three months ago. Foster kid, recently placed”.

Meus caros, regozijem-se: “Essa outra garota, Heather, dever ser Heather Mahome. Sumiu uns três meses atrás. A criança de Foster, recém-alocada”.

A criança de Foster!

Não é lindo? Não é incrível? Assim que li a frase, dezenas de imagens começaram a pipocar na minha cabeça, e soube que estava diante de uma criação de valor real; se eu fosse um executivo de estúdio de cinema, e alguém chegasse para apresentar um projeto, e dissesse apenas isso: “O título é A criança de Foster“, oh, cara, eu comprava na hora.

Então fiz o que era certo. Criei um pôster.

A criança de Foster

Breve nos cinemas.

(Clique na imagem para ver em alta resolução e aprecie, em todos os detalhes, a absurda quantidade de tempo que dedico aos projetos mais cretinos.)

Obrigado, tradutores da internet. Vocês vão me deixar milionário.

When in doubt

26 de October de 2009

Irritado com a quantidade de filmes ruins, chatos, sem-graça, pretensiosos e pseudo-artísticos que pululam nos festivais de cinema brasileiro, resolvi criar uma lista de ideias absolutamente infalíveis para melhorá-los. Vale mais que todos os cursos de roteiro que existem por aí.

1. Máfia chinesa
Todo e qualquer filme ficaria mais legal se a máfia chinesa aparecesse em, pelo menos, duas ou três cenas. Homens de terno preto que nunca sorriem. (Talvez o líder, ou o braço direito do líder, seja mais extravagante, e use um blazer amarelo brilhante e tenha uma risada escandalosa.) Eles devem ter armas e espadas, obviamente, e usar óculos escuros. Yakuza e máfia coreana (em ascensão) também valem.

2. Explosão
Se há um carro, um ônibus, um imóvel – casa, prédio, Palácio do Planalto –, uma caixa de correio ou um envelope, há uma explosão em potencial.

3. Cabeça de cavalo na cama
Como O Poderoso Chefão já marcou muito essa ideia, pensei em algumas alternativas: cabeça de avestruz na poltrona, cabeça de tamanduá na estante, cabeça de chiuaua na privada. Decepe-as, agora.

4. Alienígena
Pode ser uma besta naturalmente assassina (Alien), pode ser uma besta naturalmente assassina com muitas armas legais (Predador). Só, por favor, não me façam uma besta naturalmente assassina com pele de papel higiênico (Sinais)1.

5. Luta
Todo filme que tem kung fu ganha, de saída, nota 7; a partir daí, só pode melhorar. Outros tipos de luta também contam, mas tem que ser bonito de ver.

6. Cara que voa
Já falei disso várias vezes aqui, mas vamos repetir porque é importante: um cara que voa é sempre, SEMPRE uma boa pedida. Ou então uma mulher que voa – aliás, mulher que voa está em falta no cinema, e acho que alguém deveria explorar esse filão.

7. Atiçador de lareira
Talvez seja difícil justificar a presença de um, a não ser que o filme se passe em Campos do Jordão ou coisa assim, mas vale a pena: em 1946, Karl Popper estava apresentando uma conferência no Clube de Ciência Moral de Cambridge. Popper achava que existiam problemas filosóficos genuínos; Wittgenstein, que era o presidente do clube, achava que existiam apenas problemas linguísticos disfarçados de problemas filosóficos.

Bom, só sei que os dois começaram a discutir. Aí o Wittgenstein pirou de vez e começou a ameaçar Popper com um atiçador de lareira, brandindo-o enlouquecidamente. Dizem que foi Bertrand Russell quem apartou a briga: “Wittgenstein, put that poker down at once!”2

Todos hão de admitir que isso deixou a conferência muito mais legal. E, se um atiçador de lareira consegue fazer isso com uma conferência de filosofia, imagina os benefícios que pode trazer a um filme.

  1. Nova ressalva, agora que vi District 9: não importa qual seja sua metáfora política/social, uma sociedade de extraterrestres que chegou à viagem interestelar e tem armas capazes de explodir cidades inteiras NÃO vai aceitar ser confinada numa favela e para passar o resto dos dias trocando sua tecnologia legal por ração de gato. Sério: não vai. []
  2. Agradecimentos a Fabio Danesi Rossi por ter me contado essa história. []