Estava assistindo à primeira temporada do Lie to Me, aquela série em que o Tim Roth sempre sabe quando as pessoas estão mentindo – e que é bacaninha, até, apesar de chupinhar várias coisas do House e de não ser tão bom quanto, e apesar também de certas histórias não fazerem muito sentido –, quando fui exposto a algumas criações absolutamente sensacionais da legendagem voluntária da internet.
Olha, devo dizer que até admiro, ainda que meio de longe, esses caras que pegam as séries assim que elas passam nos EUA, traduzem tudo durante a madrugada, sincronizam, renderizam e postam o resultado em blogs cheios de anúncios do BuscaPé. Não entendo por que eles fazem isso, mas acho bom, porque aí dá pra assistir e tal. Mesmo que os tradutores não sejam assim Boris Schnaidermans das séries de TV, as legendas ajudam a entender o que as personagens estão falando de verdade, porque dão no mínimo uma pista. Assistir sem legenda nenhuma acho um pouco difícil.
Mas – oh, mas. Algumas das traduções são tão nonsense que eu me pergunto como esses caras podem gostar das séries quando, claramente, não entendem metade delas. Com Lost já era assim, com The Big Bang Theory de vez em quando. Mas em Lie to Me a coisa ganhou proporções quase artísticas, digna dos holofotes. Por exemplo.
No episódio 7, a frase “That makes you one hell of a liar” virou “Isso te faz um péssimo mentiroso”. Meio que o exato oposto do que disseram. O mesmo acontece no episódio 8, quando alguém diz que “The worst lies we tell are out of love”. Ficou “As maiores mentiras que contamos são sem amor”.
No episódio 10, Tim Roth fala sobre a ex-mulher: “You know what I miss? I miss the arguments”. Esse é ótimo, porque não faz o menor sentido: “Você sabe o que eu perdi? Eu perdi os argumentos“. É duro, é duro quando a gente perde os argumentos.
Mas as melhores partes, as que realmente transcendem o campo dos “erros pentelhos” e beiram verdadeiras façanhas poéticas, são as de nome próprio. No episódio 4 há um casamento. Quando alguém cita o nome do noivo, Roth repara na expressão de desgosto que guarda-costas não consegue segurar. E comenta: “He really doesn’t like the groom”.
A frase ficou: “Ele realmente não gosta do Groom”.
(O Groom é um ser mítico, de pêlo curto e branco, que, segundo a lenda, mora nas florestas encantadas do Jalapão. O Groom ajuda as crianças que se perdem na floresta a encontrar o caminho de volta, mas exige em troca uma queijadinha. O Groom fica muito triste quando não gostam dele.)
No episódio 10, uma menina deixa escapar uma expressão de raiva. E Roth afirma: “Lots of anger. Towards mom”. Tradução: “Muita raiva. Mãe do Towards”.
(Towards é um garoto meio espinhento que passa as tardes tomando leite desnatado e jogando Donkey Kong no Nintendo 64. Os amigos do Towards tiram sarro dele porque ele ainda joga Nintendo 64, e, por mais que Towards insista, a mãe diz que não vai comprar um Wii.)
A que mais me impressionou, no entanto, está no episódio 6. Roth e sua turminha estão investigando o caso de Samantha, uma menina adotada que desapareceu. Quando finalmente conseguem encontrá-la, lá pelo meio da história, Samantha confirma que havia sido sequestrada. Mas se recusa a dar mais informações, porque outra garota – Heather – ainda está sendo mantida refém, e Samantha não quer colocá-la em perigo.
Aí um agente do FBI que também está trabalhando no caso faz uma pesquisa no grande banco de dados do FBI e conta o que descobriu: “This other girl, Heather, might be Heather Mahome. Disappeared about three months ago. Foster kid, recently placed”.
Meus caros, regozijem-se: “Essa outra garota, Heather, dever ser Heather Mahome. Sumiu uns três meses atrás. A criança de Foster, recém-alocada”.
A criança de Foster!
Não é lindo? Não é incrível? Assim que li a frase, dezenas de imagens começaram a pipocar na minha cabeça, e soube que estava diante de uma criação de valor real; se eu fosse um executivo de estúdio de cinema, e alguém chegasse para apresentar um projeto, e dissesse apenas isso: “O título é A criança de Foster“, oh, cara, eu comprava na hora.
Então fiz o que era certo. Criei um pôster.
Breve nos cinemas.
(Clique na imagem para ver em alta resolução e aprecie, em todos os detalhes, a absurda quantidade de tempo que dedico aos projetos mais cretinos.)
Obrigado, tradutores da internet. Vocês vão me deixar milionário.



23 de Outubro de 2009, 11:14 am
Haha, muito bom!
26 de Outubro de 2009, 9:59 pm
hahahahhahaha morri com A Criança de Foster!
Groom é um clássico, assim como Dean (reitor) que vira o Reitor Dean (”me encontre na sala do Dean”). Ele deve ser ótimo, pq chefia TODAS as universidades dos EUA.
27 de Outubro de 2009, 3:33 pm
Erros de legenda me fizeram estudar inglês. Já tentou ver Monty Python’s Flying Circus legendado? O horror, o horror…
27 de Outubro de 2009, 7:01 pm
Hahah, o Dean é o maior acadêmico de todos os tempos, sensacional.
Fabíola, é a edição nova do Flying Circus? Quase comprei uma vez. É ruim assim?
08 de Novembro de 2009, 8:52 am
elenco de peso! hahaha
20 de Novembro de 2009, 10:53 pm
Pois então Cassio, o problema maior das legendas feitas para Monty Python’s Flying Circus é o total desinteresse dos responsáveis em tentar dar algum sentido aos trocadilhos. E dias atrás vi The Boat that Rocked e em uma das cenas lembrei de seu post: um dos personagens diz algo sobre Buddy Holly e a legenda é…”Amigo Holly”. Tsc, tsc.
22 de Novembro de 2009, 11:46 am
Hehehehe, mãe do Towards foi da hora!
11 de Fevereiro de 2010, 7:29 pm
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ai caralho
mano, sinceridade, eu tb não sabia o que era foster
mas vc realmente foi além
o poster matou
sensacional
isso sim é honrar o nome da familia
abraço
25 de Fevereiro de 2010, 10:16 pm
Há, valeu!
Abraço!
25 de Fevereiro de 2010, 10:17 pm
E esqueci de comentar: queria MUITO ter um Amigo Holly.
04 de Março de 2010, 6:23 pm
uhauhauhauhauhauhauha
Haley Joel Osment e Wagner Moura uhauhauh
Só assiste o primeiro do Lie To Me, nem gostei mto. Assiste Bored to Death, é mto bom.
abraço